Embora já existam leis no Brasil que exijam o ensino da história e da cultura indígena e africana nas escolas, esse tipo de conteúdo ainda não é completamente disseminado na prática. Foi com essa inquietação que o município de Pio IX, no Piauí, decidiu implementar medidas para garantir que o tema chegasse a todas as salas de aula da rede, inclusive as da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A partir dessa mudança institucional, o trabalho desenvolvido na sala de aula de EJA da Escola Municipal Francisco Luís Viana pela professora Terezinha Raimunda do Nascimento Morais foi uma das experiências exitosas selecionadas pelo programa de formação docente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) no âmbito do Pacto EJA.
Mudança municipal
Para implementar os conteúdos desejados, Pio IX criou uma comissão de Educação para as Relações Étnico Raciais (ERER). A partir dela, a rede de ensino desenvolveu materiais didáticos que abordam a cultura e a história afro-indígenas, disponíveis para professores de todas as etapas de ensino.
“Historicamente, neste país, nós sabemos que os materiais didáticos sempre apagaram a história e cultura dos povos originários e afro-brasileiros. Os livros apresentam conteúdos eurocêntricos, com o olhar do colonizador”, argumenta a professora Antônia Luciene de Amorim, membro da comissão ERER. Além de um novo material didático, a rede também realizou mudanças no currículo, que vêm acompanhadas de formações continuadas a respeito dos temas.
Experiência em sala de aula
Tudo isso tem se refletido nas práticas adotadas em sala de aula. Na turma de EJA da professora Terezinha, a temática apareceu ao longo de todo o ano, com as mais diversas atividades.
A comunidade de Pau Ferro, onde Terezinha dá aula, tem raízes indígenas, e as professoras contam que ela se destaca pelo apreço pelas artes. A docente, então, aproveitou a facilidade da turma com a música e a dança para garantir o engajamento da turma.
“Se torna mais fácil trabalhar a cultura com essa turma. Ensaiamos danças, todas as aulas foram muito divertidas e alegres. Isso ajudou a melhorar o engajamento, então o avanço educacional foi nítido”, comenta Terezinha.
Depois de despertar o interesse dos alunos pela cultura e história afro-indígenas, a professora aproveitou para trabalhar também a leitura e escrita. Isso se deu através do trabalho com o alfabeto indígena, além de pesquisas relacionadas ao tema.
Trecho do alfabeto indígena, material disponibilizado pela rede de ensino que traz a relação das letras com elementos da cultura indígena. Em sala de aula, Terezinha e os alunos puderam descobrir novas informações a partir do estudo de cada letra.
Dessa forma, os componentes de Artes, Língua Portuguesa e Educação Física foram abordados juntos, com a temática das culturas afro-indígenas aparecendo de forma transversal.
Além da atuação em sala de aula, os alunos da EJA também puderam frequentar oficinas desenvolvidas no espaço de educação afro-indígena da cidade. Lá, os alunos puderam aprender a fazer tranças, acessórios afro-indígenas e mamulengos, além de participarem de outras atividades.
Luciene destaca que essas oficinas são voltadas a todos os estudantes da rede, mas que há um toque especial na participação dos alunos da EJA. “É muito importante que os alunos possam reconhecer essa ancestralidade em si mesmos. Você vê no olhar dos alunos da EJA aquela satisfação, daqueles que antes não conseguiam enxergar sua própria beleza, a grandiosidade da história e da cultura dos seus ancestrais”, afirma.
A professora reconhece que o processo de levar a cultura e história afro-indígenas para toda a rede de educação é um desafio, mas esses momentos permitem que ela enxergue um futuro promissor. “É uma caminhada longa; mas resistiremos, assim como nossos ancestrais”, destaca Luciene.
Saiba mais
A experiência desenvolvida pelas educadoras Terezinha e Luciene foi exposta em transmissão ao vivo na conta do Instagram do programa de formação da UFPB no âmbito do Pacto EJA, e pode ser conferida na íntegra no perfil @pactoeja.

